CONSTRUINDO UMA TEOLOGIA PARA INFÂNCIA


CONSTRUINDO UMA TEOLOGIA PARA INFÂNCIA

O resgate da dignidade da criança[1]

Rogerio Mendes Teixeira

 

Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz (Isaías 9.6).

A historia cristã começa com o nascimento de uma criança. Foi no nascimento do menino Jesus, que o Deus Todo-poderoso, o “Santo que habita o alto e sublime trono”, assumiu e tomou toda a impotência, fraqueza e carência da infância humana em favor da nossa salvação e da redenção de toda a criação. O que nos impressiona na história do nascimento de Jesus é que a verdade de Deus é encarnada em uma pequena criança. Aquela criança carrega em si mesma a esperança para um mundo caído e caótico. Essa história tem suas consequências, e duas delas, relacionadas à infância nos chamam a atenção:

ü  A infância, e não somente nossa humanidade, é capaz de suportar a transcencência

ü  Nós não podemos conhecer a plenitude de Deus sem comprender o que é ser uma criança

Duas imagens vem dos ensinos de Jesus as quais contribuem para repensarmos o lugar da criança e o significado da infância na vida humana. A primeira é a familiar pintura na qual Jesus recebe algumas crianças com tamanha ternura e amabilidade, a fim de abençoá-las. Na segunda, Jesus traz uma criança para  e usa a imagem dela como exemplo para ensinar aos seus discípulos, e demonstrar como o tempo presente está sendo transformado, e apontar para o futuro de Deus, trazendo esperança de uma nova realidade. Assim, fica claro que quando nós recebemos as crianças, nós estamos recebendo o divino em nosso meio. Estas histórias de crianças devem ilustrar a maneira como Deus trabalha, caracterizando os ensinos de Jesus que reverte e coloca de “cabeça para baixo” as expectativas humanas, principalmente quando ele afirma que: “Os últimos serão os primeiros”, “os mansos herdarão a terra” e “o reino dos céus pertence aqueles que se tornam como crianças”.  A partir dessas imagens e ensinos de Jesus, como nós devemos tratar as crianças?

Tratando as crianças com total dignidade

Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam. Quando Jesus viu isso, ficou indignado e lhes disse: “Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.  Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele”. Em seguida, tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou.

Os discípulos estavam agindo de acordo com sua tradição e costume quando tentaram evitar que as crianças chegassem até Jesus. Afinal, qual é o valor delas? Para muitos elas eram apenas uma propriedade. Para outros elas eram motivo de vergonha e ameaça, pois poderiam envergonhar os pais com os seus comportamentos inesperados. Além disso, as crianças eram consideradas incapazes de falar e agir racionalmente. Nos códigos sociais daquela época, as crianças deveriam ser obedientes aos pais, enquanto estavam em treinamento para terem um “belo futuro” como cidadãos. Lá, crianças não eram bem-vindas.

Então, Jesus entra em cena. Jesus age de forma radicalmente nova ao receber e dar o bem-vindo aqueles pequeninos. Aquela foi uma visão clara de inclusão das crianças na comunidade humana. Esta ação de Jesus ainda nos desafia em nosso comportamento e atitude para com as crianças, e ao mesmo tempo amplia as normas de discipulado. Na perspectiva do evangelho, nós não devemos nos impor sobre qualquer pessoa que seja mais “fraca.” Não devemos querer exercer domínio sobre as crianças, pelo contrário, devemos sim, acentuar o valor e a dignidade delas no meio da comunidade. Os ensinos e o exemplo de Jesus sobre as crianças e o discipulado devem nos impulsionar a responder adequadamente para a criança como totalmente humana e digna de respeito. Jesus recebeu as crianças e as abençoou. Como seus discípulos, nós também devemos fazer o mesmo.

Embora o foco de Jesus tenha sido sobre o discipulado e a vida no reino de Deus, ele nos ilumina e tem implicações para nossa reflexão sobre a infância. Crianças e adultos são de igual valor. A infância é digna em si mesma, ou seja, ela não é derivada ou condicional a outros fatores. O Deus que tornou-se uma criança requer que cada um de nós coloquemos o mais alto valor sobre as crianças e a tratemos com seriedade e respeito.

Os ensinos de Jesus também nos levam a ver a vida adulta em um novo caminho: “E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles. Pegando-a nos braços, disse-lhes: ‘Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo; e quem me recebe, não está apenas me recebendo, mas também àquele que me enviou.’” (Marcos 9:36-37). A completa identificação de Jesus com a infância é a fundação para  a nossa convicção de que “ser criança” não é algo que nós devemos superar ou nos libertar. Através das crianças nós aprendemos sobre como ser mais humano e sobre ser verdadeiros discípulos de Jesus. “Ser criança” é um modelo para alcançarmos a nossa humanidade em sua plenitude pois ela inclui dependência e a liberdade para viver com vulnerabilidade.

A criança é o futuro da história

Quando afirmamos que a criança é o futuro, não queremos ratificar a idéia geral que diz que a criança é o futuro, e no presente não há nenhuma atitude e ação coerente que honre a criança. Nós já afirmamos que a criança tem o seu valor hoje, e ela está no meio da comunidade. Mas a sua importância é mais ampla, conforme podemos perceber na história de Jesus e as crianças. Aquela história muda nosso foco por demonstrar que a criança carrega o passado dela para um futuro que ainda está para ser formado. Neste sentido, a criança está no meio da história, ela representa a conexão entre o passado e o futuro na vida da família. Repensar a infância sob essa perspectiva, inclui uma reafirmação do futuro que Deus continua a fazer novo.

A criança é a convergência de diversas narrativas familiares e a origem de uma nova narrativa que ainda precisa ser expandida. Na criança, pais olham para a frente, para a generosidade da vida que nos chama para sermos juntos, uma família. Se temos filhos pequenos, devemos refletir que tipo de história desejamos que seja escrita através deles. Como pais de adolescentes, muitas vezes nos sentimos intimidados, angustiados, e frustrados por ver traços em nossos filhos que não correspondem a história que desejávamos que fosse escrita. Nesses casos, nossa atitude deve ser de confiança na graça e misericórdia de Deus, enquanto ele está trabalhando na vida dos nossos filhos. Se como pais, nós falhamos, o caminho é de arrependimento e confissão diante de Deus, e se necessário, uma boa conversa com os nossos filhos adolescentes. Ainda há tempo para retomar a história. Se temos filhos jovens, e adultos, então é continuar confiando que Deus fará muito além do que pedimos e pensamos. Deus faz novo, mesmo na vida adulta, quando o evangelho faz do adulto, “uma criança que nasce no reino de Deus.” Essa é a nossa esperança e expectativa.

Quando pensamos bem, concluímos que crianças e adultos enfrentam o mesmo dilema: é difícil ser vulnerável e dependente se nós não somos reconhecidos como, exclusivamente separadas, pessoas de valor. Este é o ensino de Jesus; nós devemos honrar nossas crianças e a infância se queremos participar no reino de Deus. Tratar as crianças com respeito, e reconhecer que “devemos nos tornar como crianças” é essencial tanto para a comunidade humana como também para a nossa própria salvação e vida no reino de Deus. Nossa resposta às crianças serão grandemente aprimoradas se como adultos formos capazes de reconhecer o “ser criança” que ainda permanece em nós.

Aprendendo com as Características da infância

Quando nascem, as crianças dependem de cuidado e proteção dos outros, o que é uma distinta característica humana. Portanto, crianças são vulneráveis no sentido literal da palavra. É verdade que com o crescimento, aprendemos a andar, correr, buscar alimento e proteção, mas jamais ficaremos completamente livres da vulnerabilidade.

Para nós, como adultos, não é fácil reconhecer nossa vulnerabilidade. Nós investimos uma boa parte da nossa vida, construindo maneiras de nos proteger, e nos tornarmos menos vulneráveis. A todo custo, tentamos nos defender e provar a nós mesmos que somos fortes. Como adultos, nós não gostamos de mostrar ou reconhecer nossas fraquezas. Por isso, precisamos aprender das crianças a arte de ser vulnerável a fim de sermos completamente humanos.

Nós sabemos que Deus se tornou vulnerável pelas experiências de sofrimento de Jesus, que veio em forma humana, tornou-se uma criança, se sujeitou aos cuidados dos pais terrenos, e por fim, de maneira brutal, morreu na cruz. Na agonia e sofrimento de Jesus, Deus não somente estava presente, mas como afirma Moltman, Deus “foi crucificado” juntamente com ele. Esse sofrimento de Deus é o resultado do amor que corre riscos. Se desejamos expressar a glória de Deus, devemos permitir que esse amor também esteja em nós, e certamente correremos riscos. Crianças agem assim, elas arriscam amar. Por causa do pecado e do mal que há no mundo, o risco do amor é que eventualmente, ele traz sofrimentos. No entanto, nós devemos aprender a conviver e ser confortáveis com a vulnerabilidade. Reconhecer nossas limitações, nossas fraquezas e vulnerabilidades nos ajuda no relacionamento com as pessoas. Isso nos torna mais tolerantes, amáveis, compassivos, pois entendemos que como nós, as pessoas também vivem suas lutas e limitações.

Juntamente com a vulnerabilidade, temos outra característica nas crianças que é bem útil para o nosso aprendizado. Elas rapidamente aprendem a confiar. Desde o início da vida, elas são mantidas por pessoas estranhas, e constantemente se submetem aos cuidados de outros, seguindo novos caminhos que elas não haviam andado antes, e principalmente, elas creêm no que contam para elas. A franqueza da criança nos remete para as qualidades espirituais de abertura para o que é novo, o desejo por ser surpreendido, e a coragem para adentrar novos horizontes. Essas características estão sempre presentes na infância. Para lidarmos melhor com as crianças e com a infância, nós devemos desenvolver essas mesmas características, e uma atitude na qual nós mantemos uma abertura em todas as circunstâncias, a despeito das experiências de vida que parecem nos convidar a nos fechar e evitar novas experiências. Essa abertura e franqueza, colocada em prática em nossas vidas diárias é a expressão da nossa própria fé; uma fé arraigada nas promessas de Deus de fazer “novas todas as coisas.”

Outra qualidade da infância está relacionada a verdade fundamental da qual nenhum de nós pode escapar: a finitude. Embora queiramos nutrir e proteger a nós mesmos, construindo “paredes e muros” em nossa volta, nós jamais deixaremos de ser pessoas dependentes. Dependência é consequência da nossa finitude. Quando as crianças com toda a dependência delas são reconhecidas como de igual valor com adultos, significa que dependência pode ser vista como algo positivo dentro do modelo do que de fato significa ser humano. Se nós reconhecemos esta qualidade de dependência como uma dimensão da nossa humanidade, nós concluíremos que mutualidade e interdependência serão a norma para a vida em família, em comunidades e entre as nações.

Esta visão de dependência como norma para a vida humana é ensinada e exemplificada por Jesus. Os evangelhos nos mostram que Jesus viveu em completa dependência do Pai e unção do Espírito. Ele contou com cooperadores em seu ministério. Os discípulos foram treinados para pregar as boas novas nas vilas e cidades, enquanto muitas mulheres além de acompanhar o grupo, contribuíam financeiramente para o ministério de Jesus. No novo tipo de identidade que Jesus traz, nós constantemente estamos recebendo. No reino de Cristo nós sempre começamos com necessidade e dependência. Se esta é uma marca da vida cristã, certamente não temos como fugir ao chamado e ensino de Jesus em nos tornarmos como uma crianças. Elas nos ensinam sobre dependência e necessidade. Preservar a dependência como uma qualidade da infância enriquece e aprofunda a nossa vida como adultos.

A infância com suas características nos desafia em nosso reconhecimento das nossas vulnerabilidades, enquanto nos leva à dependência de Deus. Aprender das crianças nos chama a reconhecer a dependência como uma característica positiva e uma dimensão da nossa humanidade que resulta numa vida de interdependência e mutualidade. A infância e a vida das crianças é um convite permanente a confiarmos plenamente em Deus e em suas infalíveis promessas, e a nos entregarmos com todo o nosso ser ao Seu profundo e eterno amor.

Honrando e respeitando as crianças

Talvez você esteja se perguntando como isso pode se tornar possível na sua vida prática. Como devemos honrar e respeitar a infância? Como pais e adultos, estejamos certos, a transformação das nossas atitudes com as crianças e com a infância não serão  afetadas rapidamente ou mesmo sem lutas e esforço. Mas os primeiros passos devem ser dados:

ü  compreender com clareza o valor e a dignidade da criança como imagem e semelhança de Deus, ou seja, a criança é plenamente humana;

ü  imitar o exemplo de Jesus, que abençoou as crianças, recebendo-as com amor e carinho;

ü  encarnar o ensino de Jesus de “nos tornarmos como crianças.”

Como adultos, pais e comunidade cristã, em nossa teologia devemos estar comprometidos a receber bem as crianças e honrar a infância. Como cristãos e discípulos de Jesus, nós experimentamos humanidade em sua plenitude quando nós honramos o que é vulnerável, quando valorizamos a abertura ao novo, quando aprendemos a viver dependentes uns dos outros em uma comunidade de amor e oração.

É urgente que como igreja sejamos uma voz profética para aqueles que são fracos, pequenos, e que estão em necessidades, não somente porque nossas crianças estão em perigo, mas também porque nossa resposta para elas é a medida do nosso respeito por toda a humanidade e toda a criação de Deus. Devemos encarnar a visão da nova humanidade que Jesus proclamou e exemplificou em seu ministério. Como igreja, devemos receber e honrar as crianças como seres completos em sua dignidade e humanidade, como também, agirmos com justiça e compaixão por todas as pessoas.

Um excelente exemplo de dar o benvindo às nossas crianças, respeitando-as e honrando-as é quando fazemos a “Cerimônia de apresentação” diante da nossa comunidade de fé. Quando pais recebem suas crianças através de orações, bênçãos e palavras proféticas, toda a comunidade cristã se compromete com aquela família a ajudar no desenvolvimento e crescimento daquelas crianças. A comunidade de fé que se reúne em nome de Jesus torna-se um lugar de hospitalidade para as crianças, e para todo o povo de Deus.

Outro exemplo desse benvindo é a participação das crianças na “Mesa do Senhor.” Muitos questionam essa prática e tentam criar uma “teologia” para defender a não participação da criança na Ceia. Mas se a Mesa é do Senhor, e foi ele quem deu o benvindo às crianças, como nós poderíamos fazer o contrário?

Receber as crianças como participantes na vida do povo de Deus tem sido uma expressão da nossa hospitalidade e demonstração da nossa fé no presente e no futuro de Deus que “fará novas todas as coisas.”


[1] Traduzida e Adaptada do livro Regarding Children, a new respect for childhood and families, por Herbert Anderson e Susan Johnson, (Louisville, KY: Westminster, 1994).

Publicado por Pr. Wilson

cumprindo a carreira que me foi proposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: